quinta-feira, 14 de setembro de 2017

It (2017)


Filme escolhido para a sessão de encerramento do Motelx 2017, It é um dos filmes mais falados e aguardados do ano, fruto de um marketing desenfreado que apostou na nostalgia daquele infame tv movie de duas partes de 1990, o original do qual este é remake, que ficou na cabeça de muitas crianças na altura. Já é o filme de terror com maior sucesso de bilheteira de sempre no fim de semana de estreia, mas será que bem espremido e observado à distância It é mesmo a obra-prima que a sua fama apregoa? Na opinião daquele que vos escreve não, o que não quer dizer que não cumpra aquilo que alguns esperavam dele: assustar (anunciadamente). Enquanto filme de terror It parece sentir uma certa urgência em fazer as coisas, em ser um filme forte e insuflado como o seu palhaço banhado a CGI, como se não houvesse tempo a perder, como se tudo tivesse que ser over the top, "enorme", para o distinguir da maralha (realmente, hoje em dia, para encontrar um filme de terror basta procurar debaixo de uma pedra). É uma falácia. O filme de terror quer-se denso, atmosférico, construtivo, com uma trama, ou um "terror", que nos preenche o subconsciente e cria desconforto e antecipação por algo desconhecido que está para vir. Enquanto filme em constante movimento que é, ofegante por mais e mais, It descarta completamente esta construção para apostar numa colectânea de sustos sempre pré-anunciados pelo seu setting e, principalmente, pelo som que, sempre no volume máximo, nos assusta bem mais que a imagem. Falando de imagem, ainda que seja o palhaço o centro do filme, existem outras criaturas, e não só, que vão floreando It. Essas criaturas, os medos dos nossos pequenos protagonistas materializados, são na realidade, em conceito e imaginação, bem mais aterradoras que o palhaço Pennywise, que num terceiro acto do filme, perdido o mistério e abandonado o som para criar jump scares fáceis, não mete medo a uma criança, como aliás se observa no écrã. A espaços It traz nostalgia dos anos 90 ao espectador, algo que tem curiosamente sido tendência nos anos recentes com obras como Stranger Things, Super 8 ou o recente Super Dark Times. Essa contextualização é bem-vinda, mas se por momentos It nos lembra filmes como Goonies ou E.T., com os seus protagonistas outsiders, rapidamente faz questão de destruir tudo isso com uma afirmação, mais uma vez urgentíssima, de que isto é um filme de terror "a sério" que não está para brincadeiras. Acto contínuo, a inocência que vai pontuando o écrã e que nos dá tanto gozo observar é substituída por níveis de violência completamente descontextualizados, numa aura dark de mau génio que vai desde membros decepados explicitamente a sugestões de pedofilia, passando por pequenas mutilações, tudo isto com crianças. It não pede em momento algum este negrume deslocado da sua realidade que parece só estar lá para o choque fácil. A ausência de desenvolvimento de personagens além das peças principais do numeroso grupo de protagonistas torna os outros apenas paisagem, com pequenas sub-histórias que vão sendo apresentadas ao espectador e, no intervalo delas, lá surge o palhaço, repetitivamente, anunciadamente, forçando uma visão limitada das crianças aos estereótipos que parece passar as suas longas duas horas e 15 minutos a tentar evitar. Apesar de tudo isto, há que aplaudir It por todas as outras coisas que faz bem, e que são provavelmente aquilo que o seu público alvo queria que fizesse. It é o filme de terror perfeito dentro do seu género de jump scare para ver com amigos em casa ou numa sala de cinema à meia noite. É aquele filme sem grandes escrúpulos com a lição muito bem estudada sobre como fazer a malta saltar da cadeira de forma divertida. Estranhamente o seu negrume parece que queria apelar mais aos fãs de série B do que ao circuito comercial. Estranho tudo isto.

Porque é bom: Devido ao som ou não; It consegue assustar; um certo feeling de nostalgia anos 90; é o filme de terror perfeito para ver com amigos; as criaturas alternativas ao palhaço são criativas e parecem saídas directamente dos nossos pesadelos

Porque é mau: Apesar da sua longa duração, It é um filme apressado com uma fórmula repetitiva de jump scare que tapa todos os potenciais momentos de desenvolvimento de personagem e de interiorização da acção; de entre as várias criaturas que apresenta, o palhaço protagonista é a menos inquietante e criativa; existe uma aura negra demasiado adulta e violenta que está deslocada do espírito da história e dos seus protagonistas; o filme parece um produto artificial de laboratório, pouco natural e com pouca alma

terça-feira, 12 de setembro de 2017

MOTELX 2017 - Dia #4: Missing You (2016), Berlin Syndrome (2017), Lake Bodom (2017), Lowlife (2017)


Um quarto dia com propostas que foram do thriller psicológico ao slasher viu curiosamente num dos filmes menos esperados e com menor audiência, o sul-coreano Missing You, pelas 14h, um dos pontos mais altos do Motelx. O muito aguardado Lowlife foi elogiado por algum do público presente, mas esta comédia negra gangster com um lado humano ficou-se pelas intenções. Estava também agendado A Dark Song para as 00.30h, mas um problema técnico adiou por uma hora a sua exibição o que nos impediu de o ver.


Missing You: Foi talvez o melhor filme a passar pelo quarto dia do Motelx, com uma sala a meio gás logo a seguir ao almoço. Missing You é um thriller de vingança em contexto policial ao jeito habitual da nova vaga do excelente cinema sul-coreano, numa realização muito bem afinada do estreante Hong-jin Mo, com um trabalho de camera tenso e uma belíssima cinematografia. É um filme que recorda Se7en de Fincher ou The Chaser de Hong-jin Na, entre outros filmes sul coreanos do género, com personagens fortes, assim como o seu argumento, acompanhando a já elogiada realização. No entanto existem momentos em que Missing You parece esforçar-se demasiado para entregar tensão e pequenos clímaxes, não deixando as suas personagens respirar e existir durante alguns momentos, ao invés de estarem constantemente a agir. Esse empacotar de acção acaba por criar em Missing You camadas de interesse diferentes para o espectador, cada camada com a sua personagem principal, e com ela as suas motivações e linha argumentativa, entre as várias que existem. Ainda que todas tenham os seus pontos de interesse, a do assassino e detective são sem dúvida superiores a uma terceira, uma linha argumentativa no feminino que se torna estereotipada e superficial, num papel que exigia exactamente o oposto. O excesso de acção, ainda que eficaz formalmente e substantivamente, torna a globalidade do filme num relato superficial que acaba por não conseguir dar a machada emocional que pretende no final, num filme muito ambicioso para um realizador que ainda não tem a maturidade suficiente para o dirigir com plena mestria mas que dá já sinais muitíssimo positivos.




Berlin Syndrome: Apresentado como um thriller psicológico intenso em que uma turista australiana se vê presa em cativeiro em casa de um engate de férias, Berlin Syndrome na realidade arrasta a sua antecipada trama repetitivamente, num arrastão que tem paralelo entre o espectador e o próprio filme. Num primeiro momento a psicologia das personagens, o seu maior fulcro (não vale a pena pensar em Berlin Syndrome de forma muito mais profunda que isto; se o filme fosse metáfora para os mistérios da vida sexual dos jovens adultos os nossos protagonistas seriam bem mais...jovens adultos) é bastante realista, mas a partir de determinado momento a realizadora Cate Shortland prefere elogiar a dramatização estilo conto de fadas macabro, com muitas polaróides e afirmações de estilo desnecessárias que farão rolar os olhos do espectador mais objectivo, ao invés de se focar na tal tensão que nunca existe ao longo de todo o filme, com excepção do seu desenlace de cortar à faca merecedor de elogios. Infelizmente, o caminho para chegar a esse momento é cinzento, penoso, longo e repleto de chouriços que custam a encher, quanto mais a saborear.



Lake Bodom: Filme a concurso para o prémio de melhor longa metragem de terror europeia no Motelx, Lake Bodom é um teen slasher finlandês com elementos de crítica social a problemas actuais como o bullying tão deslocados que se torna constrangedor. Inicialmente observamos um grupo de quatro adolescentes que decidem passar a noite num lago remoto onde existiu um crime misterioso e macabro há 50 anos atrás. O momento que "algo corre mal" acontece cedo demais, seguido de um plot twist forçado e sobretudo desinteressante que precisa de utilizar um terço do total do filme para ser explicado ao espectador, de forma bacoca, moralista e constrangedora que não devia ter lugar, ainda para mais quando é o primeiro a objectificar a sua feminina personagem principal, seguindo para um terceiro acto confuso, repleto de plot holes, que se esforça para imitar, apenas à superfície, filmes como Wolf Creek. O que safa Lake Bodom da mediocridade do seu mau gosto é a excelente cinematografia que apresenta, verdadeiramente fantástica, que merecia um argumento bem melhor.




Lowlife: A forma como o realizador de Lowlife falou do seu próprio filme, a seguir à sua exibição, relevando os aspectos sociais que explora (tráfico de órgãos e seres humanos perto da fronteira com o México) ao invés da comédia negra tarantinesca que realmente observamos no écrã permite dizer que das duas uma: ou Ryan Prows leva o seu filme demasiado a sério, numa auto-avaliação que só pode existir num universo paralelo, ou então Lowlife falhou completamente os seus objectivos. Contada através de três perspectivas diferentes que convergem para um quarto segmento final, a história de lowlife fala em jeito de comédia negra de criminosos e toxicodependentes num contexto de tráfico de órgãos que apenas serve precisamente para isso: contexto. O lado "sério" de Lowlife nunca é realmente explorado, mas com a sua apresentação light e tragicómica, que relembra a aselhice de momentos como a limpeza do automóvel banhado de sangue em Pulp Fiction, Lowlife consegue ser bom entretenimento, com personagens bizarras e bom humor de situação. Infelizmente não vai além disso.

domingo, 10 de setembro de 2017

MOTELX 2017 - Dia #3: Better Watch Out (2017), The Untamed (2016), The Endless (2017), The Masque of the Red Death (1964)

O terceiro dia do MOTELX 2017 foi variado, do home invasion/exploitation de Better Watch Out, ao drama familiar com elementos de fantástico de Untamed, passando pela bela homenagem a Roger Corman na mítica sala do Tivoli com a exibição de Masque of the Red Death de 1964, o filme mais interessante do dia.

Better Watch Out: A originalidade é um conceito quase impossível no cinema de 2017. Pode parecer um lugar comum, mas ao longo de mais de 120 anos de história da sétima arte já tudo foi feito, nem que seja conceptualmente. Better Watch Out quer surpreender as regras de género pré-estabelecidas, colocando, num primeiro momento, babysitter e miúdo de 12 anos sozinhos em casa no Natal perante uma home invasion à Sozinho em Casa versão terror. Tudo expectável e agradavelmente bem feito até um realmente inesperado plot twist que transforma Better Watch Out num esquisito torture porn à Funny Games de Haneke ou, mais recentemente, Knock Knock de Eli Roth, que desafia a curiosidade do espectador com interpretações verdadeiramente bizarras. Nota-se bem que a intenção é fazer algo diferente, algo de negro/sádico num contexto idílico de renas e jingle bells, e a verdade é que funciona bastante bem. Better Watch Out é um filme de Natal fora do contexto para os meninos maus que não gostam de seguir regras.



The Untamed: Vencedor do Leão de Prata em 2016 para melhor realizador em Veneza, The Untamed é um drama familiar com elementos de fantasia que é diferente do habitual, mas que não assume interesse particular em nenhum momento, além de um moderado mistério que pouco vai além da simbologia de luxúria. Cinematograficamente irrelevante, é difícil de perceber o elogio de alguma crítica à sua realização, anónima, com um argumento irregular que deixa vazias as poucas questões que coloca. Além do seu retrato social que tem, a espaços, momentos de interesse, The Untamed tem alguma alma, mas acaba por não concretizar nenhuma das muitas ideias que vai sugerindo, sempre de forma tímida, como se temesse o comprometimento.



The Endless: Apresentado no Motelx pela sua dupla de realizadores através de vídeo, The Endless fala de dois irmãos, interpretadores pelos próprios realizadores, argumentistas, entre outras inúmeras funções onde constam nos créditos, que escaparam de um culto/comunidade quando eram jovens e decidem voltar 10 anos depois para ver se tudo era realmente como se lembravam. Em primeira instância, apesar de uma certa sensação de amadorismo, o filme está bem embalado, com uma boa trama, mas com o decorrer do tempo e introdução repentina de elementos de fantasia deitam tudo por terra, fazendo com que The Endless se aproxime mais de um episódio de uma qualquer série do Sy-fy ao invés de um filme de terror/mistério independente. The Endless quer ser muita coisa, do drama familiar ao terror, é ambicioso e com muitas ideias que infelizmente não conseguem passar eficazmente para o écrã em nenhum momento.



The Masque of the Red Death: Roger Corman veio ao Motelx como convidado de honra e apresentou na belíssima sala do Tivoli o seu filme de 1964, The Masque of the Red Death, um filme adaptado de um conto de Edgar Allan Poe em que um príncipe europeu por volta do séc. XIV, magistralmente interpretado por Vincent Price, adorador de Satanás, aterroriza os camponeses enquanto dá festas luxuosas no seu castelo, protegendo os seus ocupantes de uma peste vermelha que assola a região. Deliciosamente teatral, The Masque of the Red Death é um filme de género fantástico superior, uma reflexão influenciada pelo Sétimo Selo de Bergman sobre luxúria, desejo e filosofia pós-morte pelas acções em vida, com uma realização inspirada de Corman que utiliza uma palete de cores fortes impressionante que só se veria assim elogiada no écrã com Suspiria de Argento para contar a sua intrigante história. O conto medieval de mistério dificilmente será superior a Masque of the Red Death no cinema.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

MOTELX 2017 - Dia #2: The Void (2016), Kfc (2016), El Bar (2017)

Após uma estreia algo descontextualizada, o segundo dia da 11ª Edição do MOTELX  embalou bem para a exibição de filmes interessantes no âmbito do fantástico/horror. Vimos o canadiano The Void, um call back ao body horror de Carpenter, o drama vietnamita negro e violento de Kfc e o thriller/comédia negra El Bar, de Álex de la Iglesia, um filme que teria assentado que nem uma luva para abrir as hostilidades se tivesse sido exibido no primeiro dia.

The Void: É sempre um prazer ver que ainda existem cineastas amantes do género de terror que gostam de elogiar as suas principais influências através do seu cinema, e The Void procura seguir as pegadas de Carpenter, e em particular de The Thing, com os seus practical effects artesanais em detrimento do já mais que mastigado CGI, que no horror low-budget corre sempre o risco de ser mais ridículo do que assustador. The Void começa muito bem, com as suas personagens genéricas barricadas num hospital de província com pouca ou nenhuma actividade, cercados por figuras encapuzadas assustadoras. O body horror monstruoso artesanal e o seu mistério começa a tomar muito bem conta do écrã, numa primeira meia hora optimista e entusiasmante, mas a partir daí, quando o argumento começa a desenvolver para elementos do oculto sem qualquer fascínio para o espectador, começam a descobrir-se as fragilidades e The Void torna-se um filme empapado, confuso, lento e desinteressante, com os seus momentos finais, em oposição ao seu aliciante início, a revelarem-se uma verdadeira prova de resistência. Perto do final, uma personagem pergunta "Is it over?". Sim, finalmente. 



Kfc: O quase desconhecido pela internet Kfc, filme vietnamita, entra directamente na restrita lista de filmes mais negros e perturbantes que já foram exibidos no Motelx. Apesar das suas temáticas psicologicamente pesadas, que incluem necrofilia, canibalismo ou tortura, e que caberá ao espectador apreciar como livremente entender, Kfc é um filme com uma cinematografia, realização e argumento notáveis que o colocam num patamar acima daquilo que normalmente observamos no festival. A sua estética, sempre cuidadosamente composta, é ao longo da sua bem equilibrada duração de 68 minutos algo de maravilhoso, acompanhando um argumento fragmentado muito bem construído e embrulhado que acompanha um conjunto de personagens que, fruto de causa e efeito nas suas vidas, se vêm afectados por acontecimentos macabros que são, nas palavras do realizador, um elogio ao mal, que está sempre presente mas é sempre discriminado em relação ao bem. Há mais alma e substância em cada uma destas personagens interligadas, provavelmente com menos de 15 minutos de écrã cada, do que na esmagadora maioria das produções cinematográficas de hoje. Quando observamos de onde veio e qual a sua origem, um projecto universitário vietnamita, o mérito sobe ainda mais. Kfc, uma crítica à amoralidade fast food que pauta os nossos dias nos mais pequenos detalhes, é uma pérola de cinema na programação deste ano do Motelx, um filme que cumpre tudo aquilo a que se propõe, com excelência.



El Bar: Álex de la Iglesia, nome robusto do cinema de género espanhol habituado a aliar o thriller e o fantástico à comédia negra trouxe ao Motelx provavelmente o maior destaque do dia. A premissa, já vista noutras ocasiões, é sempre interessante pelo seu mistério: numa manhã num bairro de Madrid, um grupo de estranhos fica preso dentro de um café quando dois dos seus clientes são aparentemente mortos por um sniper ao sair. Sem respostas para o motivo, numa alegoria negra ao terrorismo moderno, a imaginação dos restantes clientes comporá o resto da trama. Na sua primeira metade El Bar é verdadeiramente maravilhoso, brincando de forma ácida com os estereótipos das suas personagens e com pequenos detalhes da "cultura de café" espanhola, como as tortillas e as máquinas de jogo, com interpretações teatrais deliciosas que remetem para as actuais comédias espanholas e francesas pela sua pormenorização (a dona do café é irresistível). Há que dar mérito ao realizador pela forma como a comédia negra de mistério se vai a pouco e pouco transformando num thriller mais visceral, mais sério, mais filosófico ao escalar o rumo dos acontecimentos para uma luta desmesurada pela sobrevivência individual. O problema é que essa filosofia, a tal verdadeira "essência humana", é algo que hoje em dia já é bacoco no cinema, é algo tão básico que irá apenas surpreender os mesmos jovens que ao ver Battle Royale aos 15 anos acharam que estavam perante o filme mais profundo alguma vez filmado. El Bar, na sua segunda metade algo genérica (mais genérico que isto só um sem abrigo a citar constantemente a Bíblia), foca-se demasiado nesse drama inter-personagem, mas ao mesmo tempo consegue ser thriller eficaz, com um belo desenvolvimento de personagens e um trabalho de camera a lembrar os corredores de Alien, entre outras referências. El Bar é um bom filme que perde solidez com o tempo, mas os seus bons momentos são tão bons que fazem esquecer o rumo menos original que acaba por levar e que teria assentado que nem uma luva na sessão de abertura do Motelx.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Motelx 2017 - Sessão de Abertura: Super Dark Times (2017)


Super Dark Times é um potencial filme de culto para um nicho muito particular, o mesmo nicho que eleva Donnie Darko a esse estatuto, filme ao qual tem sido directamente comparado e apontado como principal inspiração. Observamos a forte relação de amizade entre dois adolescentes na casa dos 17 anos num bairro suburbano norte-americano no início dos anos 90, que subitamente se vê afectada por uma tragédia que os dois amigos se vêm obrigados a esconder, algo que os irá perseguir numa espiral emocional apresentada de forma onírica e contemplativa até ao seu pouco robusto desfecho. Parece que a principal intenção do realizador Kevin Phillips é realizar um filme belo, uma reflexão realista mas negra sobre a raiva deste círculo de adolescentes que funciona a título de exemplo para todos os outros, com referências nostálgicas entre conversas e desafios que provavelmente todos tivemos a determinado momento do crescimento. Todavia o grande desafio de Super Dark Times é equilibrar-se de queixo elevado dentro do quadro imagético contemplativo que ele próprio pinta, numa corda muito frágil que, partindo, tomba para o campo de um pretensiosismo pesado injustificável pela sua substância argumentativa. Simbolicamente (porque Super Dark Times pouco mais vai além de uma descrição onírica de uma certa revolta juvenil) o filme faz tudo com peso e medida, com elementos que caracterizam de forma realista as emoções, reacções e consequências com que a geração representada (mais uma vez simbólica, exemplificativa) se vê confrontada, o que é feito com a preciosa ajuda dos seus dois bons actores principais. Na realidade não estamos a observar a história concreta destas personagens, como o filme nos tenta inesperadamente impingir ao filmar na sua cena final, e julgo que não se pode considerar um spoiler, o sol a bater na cara de uma das personagens secundárias, caracterizando-a sem motivo aparente, algo que nunca fez com reflexão com nenhum dos dois protagonistas, e aí, apenas no final, Kevin Phillips sucumbe à tentação. A estética do filme, aliada a uma banda sonora que lhe assenta que nem uma luva, será aprovada pelo gosto pessoal do espectador, mas mesmo para os não apreciadores nunca se torna incomodativa como o extremo do cinema de, por exemplo, Harmony Korine. Arriscando muito, Super Dark Times corresponde bem, mas não tem a robustez de substância necessária para glorificar o seu muito bom trabalho formal.

Porque é bom: Excelente tratamento estético; interpretação eficaz e hiper-realista dos seus dois protagonistas; um retrato representativo apurado de acção/reacção/consequência num circulo juvenil de classe média suburbana

Porque é mau: Por vezes desequilibra-se sucumbindo a algum pretensiosismo estético e argumentativo, de forma desnecessária; o terceiro acto da trama é pouco robusto e soa a desenrascado; carece de um desenvolvimento de personagem mais profundo, baseando-se demasiado na estética para esse fim ao invés de em argumento



Crítica também publicada em Comunidade Cultura e Arte

terça-feira, 5 de setembro de 2017

The Hitman's Bodyguard (2017)


Há filmes que servem para aquilo que The Hitman's Bodyguard serve: puro entretenimento descomprometido de Verão. Ainda assim, dentro desse leque de filmes há formas e formas de fazer cinema de entretenimento descomprometido, e não nos parece que a sazonalidade seja desculpa suficiente para que um filme não tente, pelo menos a espaços, fazer algo mais que o expectável e genérico. Em princípio o cinema é feito para ser visto numa sala de cinema, mas o novo filme de Samuel L. Jackson e Ryan Reynolds parece às vezes preferir ser feito para ser visto em viagens de avião de longo curso, e o espectro do tal cinema de entretenimento descomprometido de Verão não significa por si só que não possa existir um pouco mais de esforço. Parece também que há algo de errado no tratamento de imagem, com um brilho estranho que tira resolução e qualidade à imagem, e ainda um CGI bastante duvidoso (afinal de contas estamos em 2017 e este é um filme de grande orçamento). Talvez estejamos a ser demasiado duros. The Hitman's Bodyguard até tem bons momentos dentro da sua segurança e regras predefinidas, mas não são suficientes quando existem outros em maior quantidade que são francamente desinspirados. Torna-se algo frustrante q.b. quando o talento dos dois protagonistas, e de uma terceira, Salma Hayek, chega e sobra para fazer algo bem mais carismático. Infelizmente o argumento não lhes dá o espaço necessário, e quando escolhe afastar-se do registo comédia para a acção, esta tem tão pouca alma que dá vontade de pegar num comando e chegar à frente, como é o caso da perseguição pelos canais de Amesterdão, onde Ryan Reynolds(na realidade um seu duplo que nunca tira o capacete talvez para poupar na montagem do filme) conduz uma mota pelas margens protegendo o seu co-protagonista que foge numa lancheira enquanto os gangsters o perseguem. Para tentar contrariar a manifesta falta de interesse, ritmo e (ausência de) coreografia das sequências de acção, o realizador opta por disfarças com alguma violência (estilo melancia a rebentar) que faz subir a sobrancelha de desconfiança e, perto do final, decide do nada filmar um long take de luta corpo a corpo que faz subir ambas as sobrancelhas de espanto. Onde andou esta ideia antes ao longo de todo o filme? The Hitman's Bodyguard decide depois ainda dificultar mais as coisas para si próprio, introduzindo alguns temas políticos sérios num filme que já era desequilibrado entre a comédia e a acção, o que para ser feito com este nível de superficialidade mais vale estar quieto, com um Gary Oldman na sua cena introdutória a fazer de Christoph Waltz na cena inicial de Inglorious Basterds, versão saldos (portanto, Verão). O humor, apesar de (outra vez) genérico e mesmo algo repetitivo, tem bons momentos que vivem em igual medida do carisma dos protagonistas e do humor de situação, e há, assim de repente, 3 grandes gargalhadas a dar. Tudo isto é suficiente para pagar pelo bilhete de cinema, mas este não é, e pelos vistos prefere não ser, um filme de entretenimento com substância suficiente para se distinguir dos seus inúmeros pares como o fizeram recentemente filmes como The Nice Guys.

Porque é bom: Alguns bons momentos de humor de situação e diálogo; a presença de um Samuel L. Jackson expansivo, ainda que limitado pelo argumento; entretenimento descomprometido que entrega aquilo que promete; um bela sequência de acção perto do final; o filme nunca é realmente mau, mas também nunca é realmente bom.

Porque é mau: A introdução desnecessária de temas políticos sérios num filme já por si desequilibrado entre acção e comédia; um love interest desinspirado e desinteressante do lado de Reynolds com outro que é o exacto oposto em relação a Jackson e Salma Hayek; as cenas de acção são demasiado preguiçosas e genéricas, optando o realizador por uma pitada de violência algo gratuita para disfarçar a coisa.



segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Dunkirk (2017)


Não podemos restringir Dunkirk ao seu thriller imagético sensacionista muitíssimo eficaz, sem tentar antes desfiá-lo para procurar perceber, se possível, que história é afinal esta que está a ser contada no écrã, caso exista. Não estamos a falar em termos históricos, contexto 2ª Guerra, mas sim em termos de argumento e personagens no cinema, diálogo, ou falta dele. Por muito tradicionais que sejam não há nada de errado quando um filme abdica destes elementos, sendo que a sétima arte cada vez mais se solta das regras formais que compõe o filme e que foram sedimentadas ao longo de mais de cem anos. Numa era de aquecimento global em que a maior parte do cinema produzido mundialmente é reciclado, a quebra de barreiras formais é, entre outras, uma forma audaz de fazer cinema e que, em muitos casos, acaba por ser o catalisador que separará as obras-primas dos filmes muito bons, que torna um filme tão único que será difícil de o qualificar. Parece que Christopher Nolan há muito que pretendeu deixar de fazer cinema segundo as regras convencionais, mantendo apenas alguma linguagem blockbuster numa procura constante de tensão (o que só por si já é algo contraditório), naquilo que se traduz, filme após filme, na apresentação de filmes-conceito, e não de filmes-filmes. Com Batman criou-se uma nova abordagem ao super-herói, com Memento uma nova forma de contar a narrativa, com Interstellar uma nova forma de representar ciência espacial, com Dunkirk uma nova forma de abordar o cinema de guerra, todas elas originais e entusiasmantes, todas elas apaixonantes. Nolan sempre gostou de criar tensão no espectador, será esse o principal adjectivo enquanto se assiste a Dunkirk, aliando-se à imagem e, principalmente, ao som para mexer com o espectador, intrometer-se no seu espaço na cadeira do cinema e puxando-o, quer queira quer não, para as emoções da tela. Neste seu novo filme Nolan aposta quase exclusivamente nestas duas vertente, deixando quase totalmente para trás outras, com uma fotografia e trabalho de camera soberbos e uma banda sonora de suster a respiração e manter ao longo de 1h46m um ritmo cardíaco que, nos nossos poucos conhecimentos médicos, nos parece muito pouco saudável. Constrói-se assim em Dunkirk uma experiência sensorial talvez sem igual no cinema sim, mas num registo dramático impessoal e abstracto que em momento algum concretiza empatia entre personagens e espectadores, e isso é uma enorme contradição. Além da imagem e do som de que forma pode Nolan construir um drama de guerra se não nos é dada uma ponta de desenvolvimento de personagem, algo mais que o estereótipo, algo mais que pequenos clímaxes ao longo de um filme que é um clímax gigante em si mesmo e que vão pouco além do diálogo e moral da história ranhoso que acompanhamos no barquito que protagoniza um dos 3 pontos de vista presentes em Dunkirk? Quando sai do seu registo de acção frenética impessoal e abstracta, Dunkirk foca-se em Kenneth Branagh, o homem que olha ao longe e se espanta, em Mark Rylance, um dos exemplos civis de coragem que procurou dar o seu contributo, no soldado que procura salvar a pele na praia, enfim, ao procurar dar personagens concretas ao filme, Nolan não tem outra escolha dentro do conceito de filme que ele próprio criou senão pintar estereótipos representativos das milhares de pessoas que protagonizaram aquele momento histórico. No fundo, podiam ser estas personagens como podiam ser outras quaisquer, e isso pode ser visto de forma positiva ou negativa, enquanto representação da frieza da guerra. Apenas se borra um pouco a pintura quando se foge dessa frieza e não se resiste a dar algum melodrama final que pura e simplesmente não tem espaço para existir neste filme. Dunkirk é uma brilhante viagem para os sentidos, mas será que realmente nos importamos com o destino das abstractas personagens que observamos durante quase duas horas?

Porque é bom: Fotografia e trabalho de camera soberbos; o relato hiper-realista de uma experiência de guerra com poucos adornos que é simultaneamente uma nova forma de fazer cinema de guerra, com todo o mérito e valor que é devido à pouca originalidade que ainda resta no cinema de 2017

Porque é mau: O argumento meramente descritivo através de imagens, impessoal e com personagens-tipo abstractas inibe o espectador de criar empatia com elas, tornando o filme numa experiência demasiado fria, talvez intencionalmente, o que pode igualmente ser interpretado pela positiva, mas que acaba por não deixar uma marca forte o suficiente para corresponder ao peso dos eventos a que assistimos no écrã; banda sonora exageradamente tensa e ansiosa que rouba o protagonismo da acção

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Spider-Man: Homecoming (2017)


Então com tanta multiculturalidade e democratização no elenco, este "regresso a casa" acaba por ter um protagonista masculino e branco e um love interest sexualizado e objectificado, para não falar da nova tia May "boazona" interpretada por Marisa Tomei? No fundo é a isto que apetece reduzir a nova sequela/reboot/spin-off/enchimento de chouriço de super herói da Marvel Spider-Man Homecoming, um filme com um rumo e missão bem definidos que nunca vão além do serviço para os fãs (a máquina está oleada e a funcionar na bilheteira, para que alterá-la?) e de uma pequena ramificação de uma árvore de super-heróis que se quer bem alta e robusta e cujo tronco é Avengers e a sua sequela (e outras que certamente se seguirão). No início alguns super heróis da Marvel tinham os seus filmes. Depois falou-se do grande plano de no final os juntar a todos num grande filme de Vingadores. Finalmente fez-se esse derradeiro filme. Depois fez-se a sequela e as sequelas dos filmes individuais. E agora há que fazer mais e mais e expandir a árvore até a fórmula estar totalmente esgotada e não convença sequer os fãs hardcore. Por muito engraçado que seja, Spider-Man: Homecoming está à nascença algemado a esta limitação, de ser um peão num jogo de xadrez, uma peça da qual um franchise se serve e alimenta de forma canibal e cínica. O realizador Jon Watts, da nova nova Hollywood faz apenas aquilo que a máquina lhe manda, de forma anónima e eficaz, sem deixar no filme qualquer traço identitário. Em nenhum momento do filme este excelente super-herói, e porque não dizer que sempre foi visto como o mais importante e popular de eles todos, tem realmente espaço para brilhar à vontade no seu próprio filme que está mais preocupado em inseri-lo num outro do que em assumir uma identidade autónoma, e isso não só é injusto como é desnecessário. A lembrá-lo estão as constantes interrupções de Robert Downey Jr. e o seu Iron Man e as referências a outros vingadores, os "a sério", não vá Tom Holland e o seu principiante(?!) homem aranha ser insuficiente para transportar o filme. E realmente acaba por ser, mas apenas e só por sua própria e errada decisão. Depois temos todo o contexto polido e de boas maneiras que é agora lei de Hollywood, a tal multiculturalidade que falávamos ao início cujo tiro sai violentamente pela culatra, seguido do sempre repetido reverso da medalha que já deixou de ser "diferente" em que nem o vilão pode ser vilão à vontade estando também ele amarrado a dilemas morais que não farão mais do que alimentar redundantemente um pensamento crítico que já existe na geração que é público alvo do filme. O ponto mais interessante de Homecoming seria talvez a nova personalidade deste Spider-Man, um verdadeiro adolescente engraçado que não tinha sido realmente adaptado ao cinema (Tobey Maguire e Andrew Garfield estavam longe de ser assim), mas que na realidade não passa de uma fraca imitação de Deadpool versão Disney. O único bom momento do filme coloca o herói e o vilão, interpretado por Michael Keaton, em recíproco momento de revelação. Este último é um passarão grande que voa. Até a referência a Birdman podia ter tido melhor gosto...

Porque é bom: A personalidade do novo homem-aranha tem valor; entretém e serve para soltar sorrisos de Verão ou fim de semana

Porque é mau: O filme está algemado de início pelas regras de uma teia de super heróis maior onde se insere, e o homem-aranha nunca consegue brilhar pelo seu próprio valor nem tem espaço para isso, sendo apenas um peão do qual o franchise se alimenta, uma sombra de algo maior que está constantemente a interromper a sua pequena história; democratização forçada e contraditória na forma como apresenta o seu elenco; imitação de Deadpool versão Disney; mais um filme se um franchise reciclado e sem fim à vista.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Overdrive (2017)


Overdrive será, quase inevitavelmente, pela aparência da sua "capa", ladrões de carros com estilo e miúdas giras, um filme fraco, a rasgar o medíocre, se olharmos para ele sob um padrão de exigência comum quer a cinéfilos mais atentos quer a espectadores casuais. Ainda assim existem dois pontos de interesse que podem levar um amante de cinema a perder algum tempo a vê-lo. O primeiro na vertente do amante série B, do guilty pleasure rasca dos tal cinema perdido dos anos 80 e 90 que não terá hoje mais espaço do que ir directamente para dvd, no sentido em ver de que forma Overdrive se safa nesse campo. Não deixa de ser primeiro curioso que tenha sequer chegado às nossas salas, ainda para mais antes de estrear em países como os Estados Unidos ou o Reino Unido, se é que lá chegará. Talvez isso se justifique pela produção ser de origem francesa, tal como a cidade de Marselha que serve como pano de fundo ao filme o que lhe dá um limitado ponto de interesse, porque seria preferível que Antonio Negret, o realizador, filmasse a cidade em vez das suas discotecas. Dentro da série B rasca, Overdrive é insuficiente, mas pelo menos parece ter noção disso. Em momento algum o filme é arrogante ou dá passos maiores que as pernas, poupando-se a embaraçosos momentos de auto elogio e piada estilosa que mancham filmes directamente comparáveis como Italian Job que deveriam ser bem melhores do que o que acabaram por ser. Existem em Overdrive momentos tão reles, tão sarjeta, entre montagens de perseguição, posturas de personagem, beijos ou interações com semi-figurantes que chega a ser cómico e de um regularidade quase nobre. O segundo ponto de interesse é ver como se comporta Scott Eastwood, o filho de Clint Eastwood, cara chapada do pai, o que quase bastaria para ter carisma suficiente para carregar o filme sozinho. Infelizmente, não acontece. Scott já teve alguns papéis em cinema, uns menores, outros como protagonista, mas nunca conseguiu até agora demonstrar ter realmente jeito para a coisa. Em Overdrive parece que isso fica definitivamente confirmado. Scott Eastwood ainda tem um longuíssimo caminho a percorrer se algum dia quiser ser um actor capaz de dizer mais de duas frases de seguida sem esboçar um sorriso traquina envergonhado ao espectador.

Porque é bom: Tem noção de que é um filme fraco, o que lhe permite ter segurança suficiente para assumir essa faceta de forma divertida e descomprometida, o que só por si faz dele um objecto um pouco acima de péssimo.

Porque é mau: Inúmeros clichés com produção rasteira que não serão admitidos por grande parte dos espectadores; narrativa básica, dentro do expectável; Scott Eastwood continua a ser um mau actor.



Crítica também publicada em Comunidade Cultura e Arte

terça-feira, 6 de junho de 2017

I Am Not Your Negro (2016)


Nomeado para Óscar de melhor documentário de 2016, I Am Not Your Negro encerrou o Indie Lisboa de 2017 e estreou poucos dias depois nas salas portuguesas, algo que raramente acontece com documentários, mas que se percebe pelo interesse actual e qualidade desta obra de Raoul Peck, que coloca James Baldwin, activista pela igualdade racial nos Estados Unidos, a narrar pela voz de Samuel L. Jackson alguma da história deste pecado da sociedade americana chamado racismo, pontuada pela sua relação, tanto de Baldwin como da própria sociedade, com os líderes Martin Luther King, Malcolm X e Medgar Evers. I Am Not Your Negro podia cair no facilitismo do documentário racial genérico e provocatório, mas felizmente opta por um melhor caminho, tanto a nível de apresentação e montagem como a nível de conteúdo. Guiado pela voz de Jackson, que teimosamente insiste em relembrar pelo carisma da sua voz de que efectivamente não é James Baldwin que está a falar, o espectador vai observando um pouco da história da luta pela igualdade racial, anos 50 e 60, montando-se a teia através de imagens de época, de entrevistas ou intervenções públicas de Baldwin sobre o tema, apoiando-se também no cinema, nos ícones de Hollywood e na forma como a indústria interpretou e interpreta o tema, utilizando para isso figuras como Marlon Brando ou Sidney Poitier. A dada altura, reflectindo pela voz do nosso narrador, Baldwin recorda a forma como em criança interpretava os westerns em que os índios eram os vilões, e os cowboys, brancos, os matavam a tiro de forma heróica, fazendo através disso um paralelismo com a própria condição afro americana no tal novo Mundo repleto de oportunidades, mas apenas para alguns. Agora seriam eles os vilões. Dito assim talvez pareça que I Am Not Your Negro padece do síndrome de moralismo baratucho, ou mesmo gratuito, de muitos dos seus pares, mas não é o caso. O filme consegue fugir ao sensacionalismo e ser um produto sóbrio de reflexão muito bem ritmado em crescendo, num tom quase noir que filma palmeiras ou carros ao som de um jazz clássico minimalista no encadeamento sequencial da sua montagem, de reflexão em reflexão, numa tarefa quase educacional sempre elevada. O momento mais interessante do filme e que ilustra bem a sua função é talvez aquele em que se coloca em perspectiva a administração de Kennedy, conhecido também pela sua luta pela igualdade racial, continuada depois por Lyndon Johnson com a sua famosa lei de 1965 que proibia a discriminação racial no direito ao voto. Baldwin quase descreve esse esforço como uns mínimos olímpicos, traduzindo-se numa declaração do irmão do presidente, Robert Kennedy, em que diz que a este ritmo, se tudo correr bem, dentro de 50 anos os Estados Unidos poderiam vir mesmo a ter um presidente negro. É uma coincidência gira que provocará um certo "ooh" do público, mas não deixa de ter a sua relevância ver esta perspectiva incomum. Em jeito de punchline, Baldwin diz que a história dos negros nos Estados Unidos se confunde com a história do seu próprio país porque eles serão esse país, e é talvez nessa linha tão dificilmente equilibrável de sobriedade de conteúdo que Im Not Your Negro se vai deslocando, sempre relevante, sempre didático, quase sempre justo e nunca gratuito. Belíssimo trabalho histórico do realizador Raoul Peck, acompanhado por uma apresentação que quase supera o seu conteúdo.

Porque é bom: Conteúdo sóbrio, relevante e mesmo didáctico, sempre com elevação e respeito pelo espectador; narração cativante de Samuel L. Jackson enquanto James Baldwin; montagem sequencial de harmonia quase perfeita, noir, apoiando-se em imagens de arquivo e ilustrações cinematográficas de bela recordação.

Porque é mau: Apesar do seu conteúdo cativante, não se pode dizer que Im Not Your Negro seja algo de propriamente novo. Na realidade, em princípio, nenhum espectador irá aprender algo ao vê-lo, servindo o filme apenas para consolidação e perspectiva de uma realidade que está hoje mais na ordem do dia do que esteve nos últimos 30 anos. Im Not Your Negro não consegue resistir a algumas pitadas de sensacionalismo, sempre piscando o olho a quem o vê, consciente de que o está a fazer.



Crítica também publicada em Comunidade Cultura e Arte