segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Last Flag Flying (2017) - Leffest '17


Linklater é realizador de culto, autor da trilogia de relação amorosa composta por Before Sunrise, Sunset e Midnight, e do aclamado Boyhood, que foi filmado ao longo de 12 anos, capturando o crescimento de um rapaz até à sua ida para a Universidade. Ponto comum destas obras, e maior elogio que se faz ao realizador/argumentista, é o realismo da casualidade do dia a dia que consegue imprimir nos seus filmes. Se em Boyhood, o maior elogio era esse realismo detalhista que se prendia nos mais comuns momentos e movimentos do crescimento da criança média, na trilogia Before era o a exploração dos pequenos pormenores de uma relação amorosa, tão mundanos, tão palpáveis, e em ambos os casos tão relacionáveis com os do espectador, que fazia a irónica audácia do seu significado no cinema. Irónica porque nada teria de audaz descrever o banal. Foi Linklater, norte-americano, quem soube dar o sentimento e poesia a essa linguagem realista que acabou por tornar essas películas filmes de culto para um determinado público. Em Last Flag Flying o realizador lamentavelmente não consegue atingir o realismo dos seus melhores filmes, embora se note que o propósito do filme não seja esse em primeiro plano. Linklater pretende marcar uma posição perante a guerra e o soldado. Em 2004, aquando da captura de Saddam Hussein, a personagem de Steve Carell decide procurar os seus dois grandes amigos, companheiros na guerra do Vietname há 30 anos atrás, interpretados por Bryan Cranston e Laurence Fishburne, que já não via há igual período de tempo. A ironia da trama: o filho de Carell foi morto na guerra do Iraque, e agora é preciso preparar o seu funeral. Last Flag Flying faz um bom trabalho a dirigir sem grandes pudores ou pessimismos a sua visão crítica da guerra, mas a favor do soldado enquanto homem e enquanto patriota. Não é comum a exploração casualista a la Linklater da personagem do veterano de guerra do Vietname, num tom francamente respirável e pouco carregado, com pitadas de humor, como acontece aqui. A relação destes 3 homens, o catalisador do filme, é agradável de observar, mas raramente consegue ter a credibilidade necessária para atingir a permeabilidade do espectador/observador. Cranston tem uma boa interpretação, de show-off reconhecível que, apesar de bom, apenas consegue arrancar momentos de boa química com Fishburne nos tais detalhes casualistas que pautam a relação de ambos. No meio de tudo isso, Carell, o centro gravitacional deste pequeno road movie de honestas e fortes intenções morais, torna-se paisagem pobre, torna-se apenas num pretexto para os outros brilharem. Por vezes parece que estamos a assistir a um pequeno teatro entre os três actores, galhofando e contando histórias, sempre conscientes de que o que está ali na tela são actores e não personagens. Nesta amizade triangular, os vértices estão desequilibrados, e o seu argumento torna-se fotograficamente previsível, o que é comum em Linklater, mas não a este nível tão simplório. Last Flag Flying tem uma ou duas boas ideias morais que consegue transmitir, mas que estão, infelizmente, demasiado definidas para seu próprio bem. Na tal casualidade dos acontecimentos realistas transpostos para o écrã, falta a poesia da zona cinzenta que o realizador tão bem sabe trabalhar e que aqui acabou por deixar de lado.

Porque é bom: Uma ou duas ideias morais e de orgulho bem definidas e bem transpostas para o écrã; boa química entre Cranston e Fishburne

Porque é mau: Os elementos argumentativos estão definidos em excesso, perdendo-se a poesia da zona cinzenta que melhor move o cinema de Linklater; a amizade triangular dos protagonistas nunca é transposta com credibilidade para o écrã

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Victoria & Abdul (2017)



O realizador britânico Stephen Frears regressa aos bastidores da realeza britânica depois de ter dirigido o aclamado The Queen, que valeu a Helen Mirren o Óscar de melhor actriz. Mais recentemente Frears dirigiu filmes como Florence Foster Jenkins ou Philomena, protagonizados por Meryl Streep e Judi Dench, respectivamente. É curiosamente nesse registo, protagonizado no feminino, que Frears tem tido maior sucesso, aliando a linguagem de um certo cinema televisivo com a robustez da interpretação de algumas das melhores actrizes a trabalhar na grande indústria, sempre acompanhadas por figuras masculinas, de suporte, que não oferecem a mesma profundidade nem no papel, nem no écrã. É o que acontece também com Victoria & Abdul. Este filme, assumidamente baseado de forma vaga numa história verídica, relata de forma episódica os bastidores dos últimos anos da monarca britânica e a sua relação de amizade com um servo mensageiro da Índia que se tornou seu conselheiro e confidente. Apesar do emparelhamento do seu título, é a rainha Victoria, interpretada com astúcia pela veterana Judi Dench, que dá o tom ao filme, quem o carrega, quem o eleva a patamares superiores do que é comum apresentar neste tipo de dramas de época, que na esmagadora maioria das vezes se limitam a cumprir um determinado caderno de encargos pré-concebido, pouco ou nada arriscando, preferindo deixar em branco a assinatura de autoria do seu realizador, que muitas vezes se limita a cumprir, qual mestre de obra, as linhas de orientação do engenheiro, como foi o caso de Tom Hooper em The King's Speech. De forma aparentemente leve e descomprometida, com tons humorísticos bastante simples que não fazem justiça ao estóico humor britânico mas que cumprem, Victoria & Abdul desenvolve alegremente os trejeitos dos bastidores da corte britânica muito graças também à agradável interpretação de todo o elenco de suporte. No entanto, subrepticiamente, e sempre que a rainha Victoria de Judi Dench dá um murro na mesa, enfrentando o racismo e preconceito dos seus conselheiros e demais funcionários reais, apercebemo-nos que Victoria & Abdul não é um mero filme descritivo. Existe de facto aqui algo que está a ser dito e criado, com pena de autor, com Frears a preencher habilmente as lacunas que os documentos históricos, insuficientes para provar a veracidade do que nos é contado no filme, nos deixaram. Caberá aos historiadores fazer esse julgamento. Em cinema é de louvar que Frears, britânico, tenha esta coragem, como já teve a espaços anteriormente, de expor e reflectir, sem grandes pudores, os preconceitos que pautavam o comportamento da realeza britânica no auge do seu imperialismo. Com uma linguagem cinematográfica acessível, mas sempre consciente do seu propósito, este Victoria & Abdul é um dos dramas de época mais agradáveis dos últimos anos.

Porque é bom: Linguagem cinematográfica acessível; uma muito boa interpretação de Judi Dench; o relato despudorado do preconceito que reinava na corte britânica no auge do imperialismo

Porque é mau: Não consegue fugir de alguns vícios de realização que normalmente associamos aos tv movies de época; podia ser mais incisivo, mas por outro lado o excesso de dramatização trairia a sua apresentação descomprometida.

 

terça-feira, 31 de outubro de 2017

The Snowman (2017)



Adaptado do bestseller escrito pelo norueguês Jo Nesbo de onde extrai o título, The Snowman, adivinhava-se que o filme fosse algo próximo da linguagem do drama policial noir de algum do cinema de Fincher, por exemplo, algures na linha entre The Girl with the Dragon Tattoo e Gone Girl. É de facto essa a intenção do realizador Tomas Alfredson, aplaudido autor do filme de terror de culto sueco Let the Right One In (2008) e também do jogo de espiões que foi Tinker Tailor Soldier Spy em 2011. A verdade é que na opinião deste que vos escreve, nem um nem outro são filmes de grande consistência cinematográfica, embora se lhes reconheça a originalidade e o estatuto de culto que, pelo menos o primeiro, alcançou. Isso permitiria antever que The Snowman, excelentemente elencado por actores do gabarito de Michael Fassbender, Charlotte Gainsbourg, J.K. Simmons, Val Kilmer e pelo novo valor que é Rebecca Ferguson, fosse pelo menos um thriller agradável, ainda que derivativo. Com efeito, sem grandes adornos, os primeiros 15/20 minutos de Snowman, embora genéricos, são agradáveis, apresentando-nos de forma misteriosa e eficaz o suspense adstricto à forma de actuar do "nosso" assassino aos olhos de uma primeira vítima. A partir desse momento, qual bola de neve, Snowman torna-se numa sequência de cenas forçosamente ligadas, sem qualquer sustentação argumentativa ou dramática, rolando montanha abaixo, qual avalanche, crescendo, tornando-se uma gigantesca bola de disparates, clichés e justificações argumentativas que, não roçam, são efectivamente ridículas. Há um momento particular do filme, um envolvimento pseudo sexual/sedutor entre Fassbender e uma das suas co-protagonistas que é tão forçado e constrangedor que se torna num momento paradigmático para aplicar a agora célebre expressão facepalm. O espectador enterra-se na cadeira, envergonhado pelo embaraço alheio que desfila pelo écrã, não restando outra opção senão rir incrédulo perante algo tão bacoco. Noutra cena do filme, curtíssimas na sua maioria, servindo o mero propósito de fita cola entre plot points (fita cola rasca, castanha, que não agarra coisa nenhuma), Fassbender, precisando de levar documentos confidenciais, pergunta ao seu jovem colega "posso levar isto?". O jovem colega responde "não". Fassbender repete "posso levar isto?". O jovem colega: "ok". Corta! Siga para bingo. A personagem de Fassbender é supostamente uma lenda da investigação policial, que virou alcoólico, e que aparentemente só responde perante um chefe que se apresenta em duas ou três cenas do filme com uma personalidade em overacting completamente injustificada. Na realidade o "nosso" herói apenas bebe numa ocasião do filme, e noutra pede autorização ao estagiário para levar documentos. Que raio de de lenda caída em desgraça é esta? Noutro momento é Rebecca Ferguson quem vê a sua arma confiscada para apenas na cena seguinte abrir o forno de casa e lá ter outra escondida, legitimando assim, com a tal fita cola rasca, a utilização de uma arma por si adiante no filme. E o que se passa com Val Kilmer, mero figurante enfiado sem qualquer critério na trama, qual saco de batatas a ser descarregado de um camião?! Tudo acontece de forma conveniente e apressada, embaraçosa e forçadamente, assim, às claras. Cheio de lacunas de argumento, falhas amadoras de edição, e interpretações que roçam o cómico, Snowman é um completo desastre, daqueles tão maus que se tornam bons, que se tornam cómicos, que se tornam uma vergonha alheia épica para ver com um balde de pipocas e um grupo de amigos, à la The Room de Tommy Wiseau. O confronto final, após uma justificação de algibeira para todos os acontecimentos até então, é algo de comicamente deplorável, com interpretações "abaixo de cão" ausentes de qualquer tensão ou da mínima credibilidade que, pelo menos nesse desenlace, se pedia. Na tal cena de tensão sedutora acima descrita já se adivinhava, pela atitude inexplicável da personagem de Fassbender, que estávamos perante um filme tão mau que não havia nada a fazer. Não admira que tenha procurado afogar as suas mágoas no álcool. Afinal de contas, com este Snowman, quem não o faria? Esperemos que Fassbender, provavelmente o melhor actor da sua geração, consiga recuperar deste desmoronamento.

Porque é bom: Snowman é tão embaraçosa e involuntariamente mau que se torna bom, é impossível não rir perante tamanha vergonha alheia; pelo menos Snowman não se julga mais do que aquilo que realmente é e está longe de ser um filme pretensioso; cria vontade de mostrar o filme a amigos, rindo em conjunto, como por vezes se faz com The Room de Tommy Wiseau

Porque é mau: As interpretações, montagem e argumento são verdadeiramente deploráveis e embaraçosas; todo o filme está preso por arames, com um argumento esburacado repleto de contradições e justificações despudoradamente forçadas; um thriller que está totalmente isento de tensão; personagens vazias que assentam em rótulos predefinidos pelo argumento quanto a aquilo que são, ao invés de de facto o serem.




quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Detroit (2017)



Num período do cinema em que a denúncia da (des)igualdade racial, quer actual, quer histórica, está, finalmente, na ordem do dia, cumpre reflectir de que forma esse cinema que se pode apelidar de intervenção social se deixa contextualizar enquanto obra cinematográfica (objecto de arte) e enquanto forma eficaz de despertar mentes, chamando a atenção do espectador (interessado) para a problemática exposta em tela. É interessante ver de que forma Kathryn Bigelow, realizadora do exímio Hurt Locker que lhe valeu o primeiro Óscar de realização atribuído a uma mulher, iria pegar neste jogo de intenções, aliando a sua marca de autora de cinema de guerra aos motins que tiveram lugar em Detroit, em 1967, por motivos raciais, expondo a ainda actual problemática da violência policial exercida por brancos sobre negros. Num primeiro plano, o social, o filme de Bigelow cumpre a sua função, numa apresentação em 3 actos, começando por expor a realidade de Detroit à época e apresentar as personagens que acompanharemos durante o acto central do filme: 3 polícias brancos aterrorizando um grupo de negros que se encontravam num motel para descobrir um atirador furtivo. O filme constrói-se, peça por peça, para esse momento, uma longa e claustrofóbica cena de interrogatório e violência policial que dura mais de metade do filme e que tem tanto de corajosa como de penosa, revolvendo e remastigando os fantasmas da atitude persecutória que a comunidade afro-americana representada na tela sente em relação à força policial onde quase apenas militam brancos. Extraíndo a problemática racial desta cena que é o cerne do filme, Bigelow parece apostar numa linguagem de terror a roçar o torture porn home invasion ou exploitation, eficaz para espelhar no espectador o pretendido sentimento de revolta e impotência. John Boyega é o ponto de equilíbrio nessa longa cena, interpretando um segurança afro-americano que se encontrava no local e que pouco poder tem perante a polícia. É esta a personagem que acaba por metaforicamente representar a posição do espectador (o cidadão) perante aquilo que é visto no écrã e perante o qual nada pode fazer, assim como é na "vida real". Podemos indignar-nos, podemos tentar influenciar a resolução da problemática em pequenas doses, mas não temos o poder de acabar com ela enquanto cidadãos. Bigelow deixa bem claro que está a passar uma mensagem. Em Detroit, o filme, quem dita as regras é a polícia da cidade, sob o fechar de olhos da polícia militar. Na actualidade americana, quem pode ditar as regras, solucionando o problema, prefere não o fazer. Neste filme de forte cunho intervencionista, convém reflectir de que forma é que Detroit é um produto relevante, uma vez que os espectadores que o mesmo pretende alertar não coincidem com aqueles que o verão. Esses, os interessados, verão apenas o retrato confirmado de uma realidade que já reconhecem. Não deixa de ser estranha a parca distribuição do filme nas salas portuguesas, o pouco tempo que esteve em sala e, nas salas que o exibiram, a moldura de audiência foi manifestamente reduzida para o novo filme de uma realizadora deste calibre, sempre com uma realização clínica, tensa, directa (como é sua marca) e com um leque de actores bastante apetecível. Não deixa de ser irónico que seja precisamente o publico que o filme procura alertar o mesmo que o deixa cair no enfado do esquecimento. 

Porque é bom: Análise crua e directa das problemáticas de violência policial racial ocorridas em Detroit nos anos 60, que mantém paralelismo hoje em dia; tecnicamente infalível, Bigelow aplica a sua estética de cinema de guerra ao drama racial, piscando o olho à linguagem de um certo tipo de cinema de terror.

Porque é mau: As conclusões a extrair de Detroit são as mesmas que levarão o espectador a interessar-se por ele, tornando o seu propósito circular; a cena central do filme pode ser demasiado longa e penosa para determinado público

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

mother! (2017)


Existem duas lentes sob as quais podemos olhar para mother!, o produto mais intrigante e provocatório de Aronofsky desde Requiem for a Dream: a emocional e a racional, que se confundem respectivamente com o momento da visualização e o momento da sua discussão. mother! é um daqueles filmes que pede para se falar sobre ele, apresentado narrativamente de forma ilógica, com claros elementos simbólicos que pedem para ser interpretados depois da audácia que é ver, e sentir, a tal "loucura" que desfila pelo écrã. Isto pode ser visto por alguns como pretensiosismo, mas a capacidade criativa de Aronofsky e a forma como eficazmente joga com as emoções do espectador permite ultrapassar essa ténue barreira. Desde o seu início, com Jennifer Lawrence e Javier Bardem (ambos personagens sem nome, ele nos créditos é Him, com maiúscula), casal que habita uma espaçosa e imaculada casa, cenário único, no meio do campo de forma feliz, que mother! insere os seus elementos bizarros e incómodos através das personagens dos inesperados visitantes Ed Harris e Michelle Pfeiffer. A dança de corredores louca, dançada a solo por Lawrence à medida que a sua paz caseira é invadida de forma exponencial e cada vez mais avassaladora transporta-se com brutal eficácia para o espectador e o seu claustrofóbico espaço na cadeira da sala de cinema, com propósito já assumido pelo realizador de provocar esse incómodo, recordando-nos, em nível extremo, daqueles momentos em que organizamos uma grande festa em casa e há alguém que teima em não respeitar o espaço. A ansiedade crescente e nefastamente criativa assume-se como característica principal do filme, com uma cadência pulsante, quase respiratória, orgânica, que prende o raciocínio de quem tenta, a todo o custo, ver o filme de forma objectiva sem se deixar capturar pela alegoria catársica de mother!. Esta alegoria, a palavra que descreve bem aquilo a que assistimos, com várias teorias e interpretações possíveis que vão desde uma mensagem ecológica, à bíblia, passando pelo feminismo, é-nos mostrada quebrando regras de linguagem cinematográfica raramente desafiadas em cinema, com uma estética buñueliana de pesadelo onírico como Aronofsky tão bem saber gerir. Esta criatividade, esta relevância fílmica que vai além do sentimento de repulsa provocado no espectador, aliada à sua densidade interpretativa fazem de mother! um filme superior, ainda que tudo isso não seja necessariamente sinónimo de interesse para algum público. Gostar de mother! parece que é, a desejo de Aronofsky, algo verdadeiramente contra-natura, o que o torna um produto demasiado premeditado, laboratorizado, como que respondendo aos cépticos que vêm acusando, ao longo dos últimos anos, o realizador de nunca mais conseguir fazer outro Requiem for a Dream. A crú é tudo muito bom, mas parece que falta algo, uma alma/coração tantas vezes referida ao longo do filme mas tão poucas vezes palpável.

Porque é bom: Provocatório, o filme joga com a ansiedade e demais emoções do espectador com uma facilidade e mestria apenas ao alcance de alguns mestres como Aronofsky; as suas duas vertentes emocional e racional dão-lhe um interesse analítico superior, com a possibilidade de múltiplas interpretações

Porque é mau: mother! é um filme desagradável de ver, provocatório e incomodativo, e há momentos em que para algum público, legitimamente, não valerá a pena o esforço; apesar de todo o seu interesse criativo e interpretativo parece que falta um real propósito de ser do filme, a alma/coração tantas vezes falada na sua louca narrativa mas poucas vezes palpável.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

It (2017)


Filme escolhido para a sessão de encerramento do Motelx 2017, It é um dos filmes mais falados e aguardados do ano, fruto de um marketing desenfreado que apostou na nostalgia daquele infame tv movie de duas partes de 1990, o original do qual este é remake, que ficou na cabeça de muitas crianças na altura. Já é o filme de terror com maior sucesso de bilheteira de sempre no fim de semana de estreia, mas será que bem espremido e observado à distância It é mesmo a obra-prima que a sua fama apregoa? Na opinião daquele que vos escreve não, o que não quer dizer que não cumpra aquilo que alguns esperavam dele: assustar (anunciadamente). Enquanto filme de terror It parece sentir uma certa urgência em fazer as coisas, em ser um filme forte e insuflado como o seu palhaço banhado a CGI, como se não houvesse tempo a perder, como se tudo tivesse que ser over the top, "enorme", para o distinguir da maralha (realmente, hoje em dia, para encontrar um filme de terror basta procurar debaixo de uma pedra). É uma falácia. O filme de terror quer-se denso, atmosférico, construtivo, com uma trama, ou um "terror", que nos preenche o subconsciente e cria desconforto e antecipação por algo desconhecido que está para vir. Enquanto filme em constante movimento que é, ofegante por mais e mais, It descarta completamente esta construção para apostar numa colectânea de sustos sempre pré-anunciados pelo seu setting e, principalmente, pelo som que, sempre no volume máximo, nos assusta bem mais que a imagem. Falando de imagem, ainda que seja o palhaço o centro do filme, existem outras criaturas, e não só, que vão floreando It. Essas criaturas, os medos dos nossos pequenos protagonistas materializados, são na realidade, em conceito e imaginação, bem mais aterradoras que o palhaço Pennywise, que num terceiro acto do filme, perdido o mistério e abandonado o som para criar jump scares fáceis, não mete medo a uma criança, como aliás se observa no écrã. A espaços It traz nostalgia dos anos 90 ao espectador, algo que tem curiosamente sido tendência nos anos recentes com obras como Stranger Things, Super 8 ou o recente Super Dark Times. Essa contextualização é bem-vinda, mas se por momentos It nos lembra filmes como Goonies ou E.T., com os seus protagonistas outsiders, rapidamente faz questão de destruir tudo isso com uma afirmação, mais uma vez urgentíssima, de que isto é um filme de terror "a sério" que não está para brincadeiras. Acto contínuo, a inocência que vai pontuando o écrã e que nos dá tanto gozo observar é substituída por níveis de violência completamente descontextualizados, numa aura dark de mau génio que vai desde membros decepados explicitamente a sugestões de pedofilia, passando por pequenas mutilações, tudo isto com crianças. It não pede em momento algum este negrume deslocado da sua realidade que parece só estar lá para o choque fácil. A ausência de desenvolvimento de personagens além das peças principais do numeroso grupo de protagonistas torna os outros apenas paisagem, com pequenas sub-histórias que vão sendo apresentadas ao espectador e, no intervalo delas, lá surge o palhaço, repetitivamente, anunciadamente, forçando uma visão limitada das crianças aos estereótipos que parece passar as suas longas duas horas e 15 minutos a tentar evitar. Apesar de tudo isto, há que aplaudir It por todas as outras coisas que faz bem, e que são provavelmente aquilo que o seu público alvo queria que fizesse. It é o filme de terror perfeito dentro do seu género de jump scare para ver com amigos em casa ou numa sala de cinema à meia noite. É aquele filme sem grandes escrúpulos com a lição muito bem estudada sobre como fazer a malta saltar da cadeira de forma divertida. Estranhamente o seu negrume parece que queria apelar mais aos fãs de série B do que ao circuito comercial. Estranho tudo isto.

Porque é bom: Devido ao som ou não; It consegue assustar; um certo feeling de nostalgia anos 90; é o filme de terror perfeito para ver com amigos; as criaturas alternativas ao palhaço são criativas e parecem saídas directamente dos nossos pesadelos

Porque é mau: Apesar da sua longa duração, It é um filme apressado com uma fórmula repetitiva de jump scare que tapa todos os potenciais momentos de desenvolvimento de personagem e de interiorização da acção; de entre as várias criaturas que apresenta, o palhaço protagonista é a menos inquietante e criativa; existe uma aura negra demasiado adulta e violenta que está deslocada do espírito da história e dos seus protagonistas; o filme parece um produto artificial de laboratório, pouco natural e com pouca alma

terça-feira, 12 de setembro de 2017

MOTELX 2017 - Dia #4: Missing You (2016), Berlin Syndrome (2017), Lake Bodom (2017), Lowlife (2017)


Um quarto dia com propostas que foram do thriller psicológico ao slasher viu curiosamente num dos filmes menos esperados e com menor audiência, o sul-coreano Missing You, pelas 14h, um dos pontos mais altos do Motelx. O muito aguardado Lowlife foi elogiado por algum do público presente, mas esta comédia negra gangster com um lado humano ficou-se pelas intenções. Estava também agendado A Dark Song para as 00.30h, mas um problema técnico adiou por uma hora a sua exibição o que nos impediu de o ver.


Missing You: Foi talvez o melhor filme a passar pelo quarto dia do Motelx, com uma sala a meio gás logo a seguir ao almoço. Missing You é um thriller de vingança em contexto policial ao jeito habitual da nova vaga do excelente cinema sul-coreano, numa realização muito bem afinada do estreante Hong-jin Mo, com um trabalho de camera tenso e uma belíssima cinematografia. É um filme que recorda Se7en de Fincher ou The Chaser de Hong-jin Na, entre outros filmes sul coreanos do género, com personagens fortes, assim como o seu argumento, acompanhando a já elogiada realização. No entanto existem momentos em que Missing You parece esforçar-se demasiado para entregar tensão e pequenos clímaxes, não deixando as suas personagens respirar e existir durante alguns momentos, ao invés de estarem constantemente a agir. Esse empacotar de acção acaba por criar em Missing You camadas de interesse diferentes para o espectador, cada camada com a sua personagem principal, e com ela as suas motivações e linha argumentativa, entre as várias que existem. Ainda que todas tenham os seus pontos de interesse, a do assassino e detective são sem dúvida superiores a uma terceira, uma linha argumentativa no feminino que se torna estereotipada e superficial, num papel que exigia exactamente o oposto. O excesso de acção, ainda que eficaz formalmente e substantivamente, torna a globalidade do filme num relato superficial que acaba por não conseguir dar a machada emocional que pretende no final, num filme muito ambicioso para um realizador que ainda não tem a maturidade suficiente para o dirigir com plena mestria mas que dá já sinais muitíssimo positivos.




Berlin Syndrome: Apresentado como um thriller psicológico intenso em que uma turista australiana se vê presa em cativeiro em casa de um engate de férias, Berlin Syndrome na realidade arrasta a sua antecipada trama repetitivamente, num arrastão que tem paralelo entre o espectador e o próprio filme. Num primeiro momento a psicologia das personagens, o seu maior fulcro (não vale a pena pensar em Berlin Syndrome de forma muito mais profunda que isto; se o filme fosse metáfora para os mistérios da vida sexual dos jovens adultos os nossos protagonistas seriam bem mais...jovens adultos) é bastante realista, mas a partir de determinado momento a realizadora Cate Shortland prefere elogiar a dramatização estilo conto de fadas macabro, com muitas polaróides e afirmações de estilo desnecessárias que farão rolar os olhos do espectador mais objectivo, ao invés de se focar na tal tensão que nunca existe ao longo de todo o filme, com excepção do seu desenlace de cortar à faca merecedor de elogios. Infelizmente, o caminho para chegar a esse momento é cinzento, penoso, longo e repleto de chouriços que custam a encher, quanto mais a saborear.



Lake Bodom: Filme a concurso para o prémio de melhor longa metragem de terror europeia no Motelx, Lake Bodom é um teen slasher finlandês com elementos de crítica social a problemas actuais como o bullying tão deslocados que se torna constrangedor. Inicialmente observamos um grupo de quatro adolescentes que decidem passar a noite num lago remoto onde existiu um crime misterioso e macabro há 50 anos atrás. O momento que "algo corre mal" acontece cedo demais, seguido de um plot twist forçado e sobretudo desinteressante que precisa de utilizar um terço do total do filme para ser explicado ao espectador, de forma bacoca, moralista e constrangedora que não devia ter lugar, ainda para mais quando é o primeiro a objectificar a sua feminina personagem principal, seguindo para um terceiro acto confuso, repleto de plot holes, que se esforça para imitar, apenas à superfície, filmes como Wolf Creek. O que safa Lake Bodom da mediocridade do seu mau gosto é a excelente cinematografia que apresenta, verdadeiramente fantástica, que merecia um argumento bem melhor.




Lowlife: A forma como o realizador de Lowlife falou do seu próprio filme, a seguir à sua exibição, relevando os aspectos sociais que explora (tráfico de órgãos e seres humanos perto da fronteira com o México) ao invés da comédia negra tarantinesca que realmente observamos no écrã permite dizer que das duas uma: ou Ryan Prows leva o seu filme demasiado a sério, numa auto-avaliação que só pode existir num universo paralelo, ou então Lowlife falhou completamente os seus objectivos. Contada através de três perspectivas diferentes que convergem para um quarto segmento final, a história de lowlife fala em jeito de comédia negra de criminosos e toxicodependentes num contexto de tráfico de órgãos que apenas serve precisamente para isso: contexto. O lado "sério" de Lowlife nunca é realmente explorado, mas com a sua apresentação light e tragicómica, que relembra a aselhice de momentos como a limpeza do automóvel banhado de sangue em Pulp Fiction, Lowlife consegue ser bom entretenimento, com personagens bizarras e bom humor de situação. Infelizmente não vai além disso.

domingo, 10 de setembro de 2017

MOTELX 2017 - Dia #3: Better Watch Out (2017), The Untamed (2016), The Endless (2017), The Masque of the Red Death (1964)

O terceiro dia do MOTELX 2017 foi variado, do home invasion/exploitation de Better Watch Out, ao drama familiar com elementos de fantástico de Untamed, passando pela bela homenagem a Roger Corman na mítica sala do Tivoli com a exibição de Masque of the Red Death de 1964, o filme mais interessante do dia.

Better Watch Out: A originalidade é um conceito quase impossível no cinema de 2017. Pode parecer um lugar comum, mas ao longo de mais de 120 anos de história da sétima arte já tudo foi feito, nem que seja conceptualmente. Better Watch Out quer surpreender as regras de género pré-estabelecidas, colocando, num primeiro momento, babysitter e miúdo de 12 anos sozinhos em casa no Natal perante uma home invasion à Sozinho em Casa versão terror. Tudo expectável e agradavelmente bem feito até um realmente inesperado plot twist que transforma Better Watch Out num esquisito torture porn à Funny Games de Haneke ou, mais recentemente, Knock Knock de Eli Roth, que desafia a curiosidade do espectador com interpretações verdadeiramente bizarras. Nota-se bem que a intenção é fazer algo diferente, algo de negro/sádico num contexto idílico de renas e jingle bells, e a verdade é que funciona bastante bem. Better Watch Out é um filme de Natal fora do contexto para os meninos maus que não gostam de seguir regras.



The Untamed: Vencedor do Leão de Prata em 2016 para melhor realizador em Veneza, The Untamed é um drama familiar com elementos de fantasia que é diferente do habitual, mas que não assume interesse particular em nenhum momento, além de um moderado mistério que pouco vai além da simbologia de luxúria. Cinematograficamente irrelevante, é difícil de perceber o elogio de alguma crítica à sua realização, anónima, com um argumento irregular que deixa vazias as poucas questões que coloca. Além do seu retrato social que tem, a espaços, momentos de interesse, The Untamed tem alguma alma, mas acaba por não concretizar nenhuma das muitas ideias que vai sugerindo, sempre de forma tímida, como se temesse o comprometimento.



The Endless: Apresentado no Motelx pela sua dupla de realizadores através de vídeo, The Endless fala de dois irmãos, interpretadores pelos próprios realizadores, argumentistas, entre outras inúmeras funções onde constam nos créditos, que escaparam de um culto/comunidade quando eram jovens e decidem voltar 10 anos depois para ver se tudo era realmente como se lembravam. Em primeira instância, apesar de uma certa sensação de amadorismo, o filme está bem embalado, com uma boa trama, mas com o decorrer do tempo e introdução repentina de elementos de fantasia deitam tudo por terra, fazendo com que The Endless se aproxime mais de um episódio de uma qualquer série do Sy-fy ao invés de um filme de terror/mistério independente. The Endless quer ser muita coisa, do drama familiar ao terror, é ambicioso e com muitas ideias que infelizmente não conseguem passar eficazmente para o écrã em nenhum momento.



The Masque of the Red Death: Roger Corman veio ao Motelx como convidado de honra e apresentou na belíssima sala do Tivoli o seu filme de 1964, The Masque of the Red Death, um filme adaptado de um conto de Edgar Allan Poe em que um príncipe europeu por volta do séc. XIV, magistralmente interpretado por Vincent Price, adorador de Satanás, aterroriza os camponeses enquanto dá festas luxuosas no seu castelo, protegendo os seus ocupantes de uma peste vermelha que assola a região. Deliciosamente teatral, The Masque of the Red Death é um filme de género fantástico superior, uma reflexão influenciada pelo Sétimo Selo de Bergman sobre luxúria, desejo e filosofia pós-morte pelas acções em vida, com uma realização inspirada de Corman que utiliza uma palete de cores fortes impressionante que só se veria assim elogiada no écrã com Suspiria de Argento para contar a sua intrigante história. O conto medieval de mistério dificilmente será superior a Masque of the Red Death no cinema.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

MOTELX 2017 - Dia #2: The Void (2016), Kfc (2016), El Bar (2017)

Após uma estreia algo descontextualizada, o segundo dia da 11ª Edição do MOTELX  embalou bem para a exibição de filmes interessantes no âmbito do fantástico/horror. Vimos o canadiano The Void, um call back ao body horror de Carpenter, o drama vietnamita negro e violento de Kfc e o thriller/comédia negra El Bar, de Álex de la Iglesia, um filme que teria assentado que nem uma luva para abrir as hostilidades se tivesse sido exibido no primeiro dia.

The Void: É sempre um prazer ver que ainda existem cineastas amantes do género de terror que gostam de elogiar as suas principais influências através do seu cinema, e The Void procura seguir as pegadas de Carpenter, e em particular de The Thing, com os seus practical effects artesanais em detrimento do já mais que mastigado CGI, que no horror low-budget corre sempre o risco de ser mais ridículo do que assustador. The Void começa muito bem, com as suas personagens genéricas barricadas num hospital de província com pouca ou nenhuma actividade, cercados por figuras encapuzadas assustadoras. O body horror monstruoso artesanal e o seu mistério começa a tomar muito bem conta do écrã, numa primeira meia hora optimista e entusiasmante, mas a partir daí, quando o argumento começa a desenvolver para elementos do oculto sem qualquer fascínio para o espectador, começam a descobrir-se as fragilidades e The Void torna-se um filme empapado, confuso, lento e desinteressante, com os seus momentos finais, em oposição ao seu aliciante início, a revelarem-se uma verdadeira prova de resistência. Perto do final, uma personagem pergunta "Is it over?". Sim, finalmente. 



Kfc: O quase desconhecido pela internet Kfc, filme vietnamita, entra directamente na restrita lista de filmes mais negros e perturbantes que já foram exibidos no Motelx. Apesar das suas temáticas psicologicamente pesadas, que incluem necrofilia, canibalismo ou tortura, e que caberá ao espectador apreciar como livremente entender, Kfc é um filme com uma cinematografia, realização e argumento notáveis que o colocam num patamar acima daquilo que normalmente observamos no festival. A sua estética, sempre cuidadosamente composta, é ao longo da sua bem equilibrada duração de 68 minutos algo de maravilhoso, acompanhando um argumento fragmentado muito bem construído e embrulhado que acompanha um conjunto de personagens que, fruto de causa e efeito nas suas vidas, se vêm afectados por acontecimentos macabros que são, nas palavras do realizador, um elogio ao mal, que está sempre presente mas é sempre discriminado em relação ao bem. Há mais alma e substância em cada uma destas personagens interligadas, provavelmente com menos de 15 minutos de écrã cada, do que na esmagadora maioria das produções cinematográficas de hoje. Quando observamos de onde veio e qual a sua origem, um projecto universitário vietnamita, o mérito sobe ainda mais. Kfc, uma crítica à amoralidade fast food que pauta os nossos dias nos mais pequenos detalhes, é uma pérola de cinema na programação deste ano do Motelx, um filme que cumpre tudo aquilo a que se propõe, com excelência.



El Bar: Álex de la Iglesia, nome robusto do cinema de género espanhol habituado a aliar o thriller e o fantástico à comédia negra trouxe ao Motelx provavelmente o maior destaque do dia. A premissa, já vista noutras ocasiões, é sempre interessante pelo seu mistério: numa manhã num bairro de Madrid, um grupo de estranhos fica preso dentro de um café quando dois dos seus clientes são aparentemente mortos por um sniper ao sair. Sem respostas para o motivo, numa alegoria negra ao terrorismo moderno, a imaginação dos restantes clientes comporá o resto da trama. Na sua primeira metade El Bar é verdadeiramente maravilhoso, brincando de forma ácida com os estereótipos das suas personagens e com pequenos detalhes da "cultura de café" espanhola, como as tortillas e as máquinas de jogo, com interpretações teatrais deliciosas que remetem para as actuais comédias espanholas e francesas pela sua pormenorização (a dona do café é irresistível). Há que dar mérito ao realizador pela forma como a comédia negra de mistério se vai a pouco e pouco transformando num thriller mais visceral, mais sério, mais filosófico ao escalar o rumo dos acontecimentos para uma luta desmesurada pela sobrevivência individual. O problema é que essa filosofia, a tal verdadeira "essência humana", é algo que hoje em dia já é bacoco no cinema, é algo tão básico que irá apenas surpreender os mesmos jovens que ao ver Battle Royale aos 15 anos acharam que estavam perante o filme mais profundo alguma vez filmado. El Bar, na sua segunda metade algo genérica (mais genérico que isto só um sem abrigo a citar constantemente a Bíblia), foca-se demasiado nesse drama inter-personagem, mas ao mesmo tempo consegue ser thriller eficaz, com um belo desenvolvimento de personagens e um trabalho de camera a lembrar os corredores de Alien, entre outras referências. El Bar é um bom filme que perde solidez com o tempo, mas os seus bons momentos são tão bons que fazem esquecer o rumo menos original que acaba por levar e que teria assentado que nem uma luva na sessão de abertura do Motelx.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Motelx 2017 - Sessão de Abertura: Super Dark Times (2017)


Super Dark Times é um potencial filme de culto para um nicho muito particular, o mesmo nicho que eleva Donnie Darko a esse estatuto, filme ao qual tem sido directamente comparado e apontado como principal inspiração. Observamos a forte relação de amizade entre dois adolescentes na casa dos 17 anos num bairro suburbano norte-americano no início dos anos 90, que subitamente se vê afectada por uma tragédia que os dois amigos se vêm obrigados a esconder, algo que os irá perseguir numa espiral emocional apresentada de forma onírica e contemplativa até ao seu pouco robusto desfecho. Parece que a principal intenção do realizador Kevin Phillips é realizar um filme belo, uma reflexão realista mas negra sobre a raiva deste círculo de adolescentes que funciona a título de exemplo para todos os outros, com referências nostálgicas entre conversas e desafios que provavelmente todos tivemos a determinado momento do crescimento. Todavia o grande desafio de Super Dark Times é equilibrar-se de queixo elevado dentro do quadro imagético contemplativo que ele próprio pinta, numa corda muito frágil que, partindo, tomba para o campo de um pretensiosismo pesado injustificável pela sua substância argumentativa. Simbolicamente (porque Super Dark Times pouco mais vai além de uma descrição onírica de uma certa revolta juvenil) o filme faz tudo com peso e medida, com elementos que caracterizam de forma realista as emoções, reacções e consequências com que a geração representada (mais uma vez simbólica, exemplificativa) se vê confrontada, o que é feito com a preciosa ajuda dos seus dois bons actores principais. Na realidade não estamos a observar a história concreta destas personagens, como o filme nos tenta inesperadamente impingir ao filmar na sua cena final, e julgo que não se pode considerar um spoiler, o sol a bater na cara de uma das personagens secundárias, caracterizando-a sem motivo aparente, algo que nunca fez com reflexão com nenhum dos dois protagonistas, e aí, apenas no final, Kevin Phillips sucumbe à tentação. A estética do filme, aliada a uma banda sonora que lhe assenta que nem uma luva, será aprovada pelo gosto pessoal do espectador, mas mesmo para os não apreciadores nunca se torna incomodativa como o extremo do cinema de, por exemplo, Harmony Korine. Arriscando muito, Super Dark Times corresponde bem, mas não tem a robustez de substância necessária para glorificar o seu muito bom trabalho formal.

Porque é bom: Excelente tratamento estético; interpretação eficaz e hiper-realista dos seus dois protagonistas; um retrato representativo apurado de acção/reacção/consequência num circulo juvenil de classe média suburbana

Porque é mau: Por vezes desequilibra-se sucumbindo a algum pretensiosismo estético e argumentativo, de forma desnecessária; o terceiro acto da trama é pouco robusto e soa a desenrascado; carece de um desenvolvimento de personagem mais profundo, baseando-se demasiado na estética para esse fim ao invés de em argumento



Crítica também publicada em Comunidade Cultura e Arte